BeatBossa

domingo, fevereiro 19, 2006

Tristeza não tem fim, felicidade sim...



Gravura da Patrícia Laus
A POLAQUINHA
Descendente de poloneses, palmeirense e membro afiliado do Partido Comunista do Brasil, João se dizia o fã número um de Dalton Trevisan. Talvez até fosse mesmo, além da coincidência do nome, só descansaria quando se casasse com uma Maria. Esquizofrênico de devolver o café expresso porque está frio ou fraco ou querer explicações sobre umas coisinhas negras que boiavam sobre a espuma marrom do seu café, isso é sujeira da máquina, dizia. Traziam-lhe outro igual e ele aceitava, pura morrinha. Colecionava tudo que podia do autor. Entrevistas supostamente dadas por ele. Dizem que os caras mesmo criavam as entrevistas. Como o Dalton nunca desmentiu nada ficava por isso mesmo, só de imaginar ele dando uma entrevista no Jô ele teria quase um orgasmo.
Um dia tentou dissuadir uma prima sua a dar em cima dele, já que soube que pelo que consta ele tem uma tara por ninfetas, e sua prima era uma ninfeta que parecia ter saído de um conto dele, se não fosse isso era pelo menos uma normalista carioca de peça do Nelson Rodrigues. O serviço era fácil, se insinuar para ele, gravar tudo e depois chantagea-lo para que contasse quem era a polaquinha do romance. Simples. Você enlouqueceu! Quer que eu saia de Florianópolis me oferecer para um velho de oitenta anos para que você chantageie o coitado. Vai que ele queira me comer? Ou queira abusar de mim? Você dá pra ele e depois me conta como foi. Pode até ver como é a biblioteca dele, já pensou nisso? sem chance, teria de mirabolar outra estratégia. Mas a informação mais preciosa que queria era saber quem diabos era a tal polaquinha do romance: uma garota de programa? A filha dele que dizem que dava até para cobrador de ônibus? Uma normalista (putz! Normalista é antigo pacas. Alguém ainda fala “pacas”?)? uma filha da pequena burguesia que virou prostituta porque gostava mesmo da coisa? (há mulher que não goste?) uma virgem que foi deflorada e foi expulsa pelo pai de casa já que ninguém mais iria querer casar com ela? A mãe dele? Será que ainda estava viva e tinha uma boca onde se pudesse tomar uma cerveja gelada e barata? Quem sabe tenha casado com algum sargento? A única forma era ir até Curitiba para descobrir. Foi. Como o romance é de oitenta e cinco, escrito provavelmente entre oitenta e três ou oitenta e quatro, na pior das hipóteses ela estaria agora com quarenta anos, na força da mulher! Começou pelo passeio público, perguntou aqui, ali acolá. Acabou descobrindo onde era a casa do homem. Ficou dois dias de vigília na frente da casa do vampiro. Você viu ele? João também não. Depois soube que viajou. Na verdade tinha viajado nada. O mais provável era que tinha fechado uma boca fora da cidade. Costume seu toda vez que lançava um livro. Ia comemorar com a Tia Zefa e descontar sua raiva dos críticos nas nádegas durinhas das meninas da Tia, o grande deflorador, como ficou conhecido nos meios escusos da cidade, mas tudo isso nunca fora divulgado. Ele detesta publicidade, e no final as estórias viram lendas e mitos urbanos. Enfim , após estar perdendo as esperanças de encontrar a dita cuja, quase gasto todo o dinheiro das suas férias rondando os inferninhos do centro curitibano e arredores lhe indicaram um lugar antigo, decadente e bolorento, mais indecente do que o homem nu, onde diziam haver uma tal de Polaquinha. Não se sabia se era mesmo polonesa de ascendência, talvez fosse ucraniana, o que no final das contas dava no mesmo. Não interessava. Após quinze dias na cidade tinha uma pista quente. Achou o local. Conferia. Apesar de ser três da tarde de uma Terça-feira estava aberto. Na vitrola um bolero de Luiz Caldas, um senhor de bigodes grisalho com poucos cabelos lambidos encobrindo a careca lustrosa dançava com uma mulata no centro da sala vazia. Sentou no balcão e pediu um cerveja. Tinha. Mas estava quente. Gelado? Só suco de groselha com gelo. Pode ser. Com esse calor... tomou uns goles. Pediu pela polaquinha. O que quer com ela? Explicou em termos. Não. Explicou que corria a fama da moça pela cidade e queria conhecer as habilidades da rapariga. Desconfiada. A mulher titubeou. Entrou por um corredor escuso. Demorou cinco minutos. O senhor espere que ela já vai lhe atender. Começou a suar frio. Será? É ela mesmo? A mulher avisou que ele poderia entrar agora. Segunda porta a esquerda, é só entrar. Abriu. Uma loira de um metro e sessenta estava deitada só de calcinha de bruços sobre uma colcha que lembrava os panos que via na casa de sua avó há pelo anos vinte anos atrás. Já que nem sua avó nem os lençóis e roupas de cama existem mais. Não podia ser melhor. Uma normalista do Nelson Rodrigues misturada com uma ninfeta curitibana. Checou as credenciais do libelo. De família média. Pai escriturário do Banco do Brasil, mãe dona de casa. Deflorada pelo primeiro namorado... Nem precisa contar o resto. “Sou o primeiro?”. “Claro meu bem...” Mesmo que não fosse a original. Era essa mesmo. Difícil foi explicar para a namorada para onde ele foi que ficou três dias sem dar notícia. Agora sempre que podia dava um jeito de ir a Curitiba. Ou inventava uma desculpa para ir até lá.
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PÍLULAS DIGESTIVAS
- “Lixo literário”. Célebre comentarista, e crítico de literatura digital, aviso-lhe que descobriu a pólvora. Sei da minhas limitações, e também não peço que gostem do que escrevo, só com a leitura fico satisfeito.
- Luisão no Flamengo, enfim um atacante de ofício, espero que permaneça até o final do ano. Pelo menos começou bem, fez gol, mas infelizmente o time só empatou;
- Vi duas coisas legais final de semana: “Terra em Transe” do Glauber Rocha, é muita informação para um filme só. Alucinante o filme tem um clima constante de transe, os personagens parecem em constante delírio, e o Paulo Autran destrói, destrói, impressionante o olhar dele, de arrepiar. Legal é o poeta que não gosta do povo e se diz de esquerda. “O Ponto de Mutação” também é um filme interessante, três pessoas inteligentes discutindo filosofia, política e problemas mundiais, uma cientista física, um político e um poeta, o que possibilita um debate com pelo menos três visões interessantes, práticas ou não, objetivas ou não, mas sempre com clareza, não se prendem em questões nem muito simples nem muito complexas, a relação entre pensamento e realidade é bem nítida, o que torna o filme bem gostoso e no final você não fica com aquela impressão de ter visto uma palestra na universidade. Faz pensar...
- Show dos Stones, pois é, não fui... por que ainda não me matei?
- Estou numa maré de azar impressionante, parece que há uma grande conspiração para que eu não consiga emprego e entre em desespero. Estou tentando manter a esperança e o otimismo, mas não está fácil, até o ânimo para terminar a dissertação está secando. Amanhã vou distribuir uns currículos pela cidade, já que no estado não consegui aula. Tenho uns amigos bens legais que não me avisam das coisas, e quando liguei para a secretaria de educação não me avisaram que uma semana antes havia contagem de horas, tempo de serviço, cursos e tals. Pois é, fiquei no final da lista. Apenas mais de cem pessoas estão na minha frente. Tirando isso passei num processo seletivo para lecionar em uma pequena faculdade em União da Vitória, PR, pois é, não serei chamado, durante o primeiro semestre, dificilmente no segundo e remotamente no próximo ano. Durante os três últimos anos havia bolsa para os três primeiros colocados na seleção para o doutorado, este ano não tem previsão de nenhuma para o primeiro semestre, e remotamente para o segundo. Mas tudo bem, alguma coisa boa tem que acontecer, não posso ser tão azarado assim.
- O problema não é propriamente trabalho, já fiz de tudo um pouco nessa vida, mas estudo para não voltar a ter que fazer de tudo um pouco, e se voltar a trabalhar em qualquer coisa não poderei estudar, então o que faço?
- Como devem ter percebido estou atualizando toda Segunda-feira, e pretendo manter essa regularidade, sei que é difícil manter compromissos, mas vou tentar.
- Ps. Espero sobreviver ao carnaval, quem me conhece sabe que tento me matar todo ano me afogando no copo sem fundo de cerveja;

- Ps2: usem camisinha!!!

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