BeatBossa

quarta-feira, fevereiro 24, 2010

Eu também acho o BBB um chute, mas assisto

Eu não queria assistir, sério. Mas lá no fundo o programa não deixa de ser fascinante, apesar do Pedro Bial. "literatura do século XXI", fala sério. A gente poderia ser poupado daquele lirismo a la JG de Araujo Jorge dele. O cúmulo do kitsch não deixa de ter seus atrativos, principalmente por todos os sub-produtos que gera (vide a invasão do pânico na eliminação da Tessália video aqui). Acima de tudo, acho que a fascinação pelo programa se deve mais ao prazer que temos em julgar as pessoas do que propriamente pelo voyerismo. No íntimo, é essa a desculpa dada, nos fazem crer que o atrativo do programa é ver como as pessoas reagem a um confinamento e como se saem em provas ridículas que são obrigados a fazer para comer, ganhar imunidades, lideranças e carros.
A grande verdade é que gostamos de julgar as pessoas. E isso é mais evidente nas entrevistas, nos blogues, nos comentários no twitter... A própria escolha dos participantes envolve julgamento, e tenho certeza que ela é feita tendo em mente o julgamento que o público fará. Há personagens ali para todos os gostos. Engraçado o reaça ser o popular e o cara com o discurso do paz e amor ser o demagogo e o chato (leia-se Uiliam).
A eliminação de alguém do programa é fruto de julgamento. Além da avaliação que os membros da casa fazem dos seus companheiros de casa, nós aqui de fora podemos decidir entre os três infelizes aquele que será expelido. Daí aparecem avaliações clássicas do tipo 'fulano é chato', 'fulana é falsa', 'ciclano é manipulador', 'beltrana é barraqueira'. Não deixamos as pessoas lá pela sua capacidade de nos entreter, os palhaços nunca venceram o programa, muito menos as gostosas, que estão lá apenas por seus dotes biológicos (repare como as normais estão sendo eliminadas gradualmente). Dourado não é exatamente um comediante. Ironicamente, talvez seja como o comediante de Watchmen, a ironia é que eles representam a direita, o conservadorismo, a intolerância. Dourado é um Luiz Carlos Prates com músculos, para ambos a violência é a solução para os conflitos e o homossexualismo é frescura.
A graça, no fim, é que podemos julgar os participantes sem termos que arcar com as consequências disso. Falar mal de um amigo ou parente inevitavelmente tem consequências, uma hora ou outra o malfalado fica sabendo. No Faustão, a experiência é feita: as pessoas falam dos participantes e inesperadamente são confrontadas com o indivíduo. Não sei pra quem a cena é mais constrangedora, se para o transeunte, para o ex-bbb ou para o expectador, que engole o engodo do abraço falso e risos amarelos (é só um jogo, um faz de conta). Parece que o(a) brother/sister ao entrar no programa automaticamente entra no seu próprio personagem ('eu fui eu mesmo'). Ledo engano, não sabem eles que a todo momento estão interpretando a si mesmos. No final, se dá bem aquele que convence melhor na atuação, seja no papel de vítima, seja no papel de coitadinho, de perseguido.

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2 Comentários:

Às 6:35 PM , Anonymous Hank disse...

Voltando das trevas.
Cara, eu gosto de coisa trash, mas BBB é muito pra mim, he,he,he.
Em dez anos somados de programa acho que não consegui ver de 3 minutos!!!
Cheers

 
Às 8:21 AM , Anonymous baxo disse...

Li uma vez um ensaio interessante, na perspectiva lacaniana, sobre os reality shows (RS). O autor fazia uma analogia destes com as antigas arenas romanas, gladiadores, muita "carne viva" e sangue. Os RS são "situações quase reais", com pessoas que supostamente não estão interpretando, ou seja, o que se passa não é ensaiado e interpretado pelos participantes (há controvérsias). Na interpretação de papéis há uma mediação simbólica entre o ator e o expectador, que é o próprio papel, a atuação, a situação. Não é o João da SIlva quem está falando, é o Napoleão. Nos RS (supostamente) não há essa mediação simbólica encontrada teatro, portanto é a pessoa em "carne viva" falando, agindo, sentindo - sangrando. Daí a analogia com as antigas arenas e o desejo do povo por sangue. Lembrei disso e quis comentar pois achei interessante.

Agora estarei na ufsc terça, quarta e quinta.. acho que será mais fácil tomarmos aquele café.

abs

 

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